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Brasil Economia

Milho ganha novo destino em MS e abre frente de industrialização, com empregos e cadeia forte

01/09/2026 0 Comentário 11 min. de leitura
 Milho ganha novo destino em MS e abre frente de industrialização, com empregos e cadeia forte

Depois de décadas enviando milho para compradores de outros estados, produtores de Mato Grosso do Sul começam a encontrar novos mercados dentro do próprio território. Em Nova Alvorada do Sul, uma fábrica de etanol de milho com investimento superior a R$ 1 bilhão deverá processar 642 mil toneladas anuais. O governo aposta em industrialização e qualificação profissional para ampliar empregos e manter mais valor da produção no Estado.

Em julho, a Atvos lançou a pedra fundamental de sua primeira unidade de etanol de milho, integrada à planta de cana-de-açúcar já existente no município. O investimento supera R$ 1 bilhão e prevê capacidade para processar 642 mil toneladas de milho por ano.

Cerca de 2 mil trabalhadores deverão ser mobilizados durante a construção. Depois da entrada em operação, a estimativa inicial é de pelo menos 100 empregos diretos permanentes, além de vagas indiretas em transporte, manutenção, armazenagem, logística e fornecimento de grãos.

Para o governo de Eduardo Riedel, candidato à reeleição pelo Progressistas, o empreendimento faz parte de uma estratégia de agregar valor à produção agropecuária antes que ela deixe Mato Grosso do Sul, combinando expansão agrícola, industrialização, transição energética e desenvolvimento regional.

Mato Grosso do Sul cultivou cerca de 2,2 milhões de hectares de milho na segunda safra 2025/2026. Em julho de 2026, a produção era estimada em 11,139 milhões de toneladas.

A futura fábrica de Nova Alvorada do Sul poderá consumir um volume equivalente a aproximadamente 5,8% dessa produção, considerando a projeção da safra e a capacidade anunciada da unidade.

Mais do que o percentual isolado, a mudança está na geografia da comercialização. Uma indústria instalada próxima às lavouras oferece ao produtor uma alternativa de mercado com potencial para reduzir distâncias de transporte e ampliar a demanda regional.

Mato Grosso do Sul possui atualmente três usinas de etanol de milho em operação: duas da Inpasa, em Dourados e Sidrolândia, e a Neomille, em Maracaju. A planta da Atvos deverá ser a quarta.

No último ciclo divulgado, o Estado produziu aproximadamente 5 bilhões de litros de etanol, dos quais 44% vieram do milho. Com a nova capacidade prevista, a participação do grão poderá superar metade da produção estadual.

Um grão, vários produtos

A nova indústria não transformará milho apenas em combustível.

Quando estiver operando em plena capacidade, a planta deverá produzir anualmente 273 milhões de litros de etanol, 183 mil toneladas de DDG — coproduto proteico utilizado na alimentação animal — e 13 mil toneladas de óleo de milho.

“Essas indústrias não produzem apenas etanol. O DDG é um aliado muito interessante para os confinamentos e também pode ser utilizado na formulação de outras rações”, explica Casarin.

Com isso, o mesmo grão pode abastecer diferentes cadeias dentro de Mato Grosso do Sul. O amido vira combustível, enquanto outros componentes permanecem no DDG destinado à alimentação de bovinos, aves e suínos. O processamento também produz óleo com aplicações alimentares e industriais.

Transportadoras, oficinas, laboratórios, empresas de manutenção, fabricantes de ração e produtores de proteína animal passam a integrar essa cadeia, ampliando os efeitos do investimento para além da usina.

Cana, milho e biometano na mesma estrutura

A planta de milho será integrada à Unidade Santa Luzia, que já produz etanol e energia a partir da cana-de-açúcar. Parte da infraestrutura existente será compartilhada e a biomassa da cana fornecerá energia para o processamento do milho.

A combinação permitirá ampliar o período de funcionamento do complexo e reduzir a ociosidade durante a entressafra da cana. O CEO da Atvos, Bruno Serapião, afirmou que o milho será “complementar à cana-de-açúcar e integrado a outras rotas como o biometano”.

A família Casarin também atua na cadeia sucroenergética, com aproximadamente 2,6 mil hectares de cana cultivados em parceria com empresas do setor.

Para o produtor, a expansão das usinas mudou não apenas as opções de comercialização do campo, mas a economia dos municípios que receberam esses empreendimentos.

“Hoje já não sai somente a matéria-prima. Temos valor agregado com a transformação da soja e do milho, produção de ração, criação de animais e produção de etanol”, afirma.

O complexo de Nova Alvorada do Sul receberá ainda uma fábrica de biometano, com investimento superior a R$ 350 milhões. A unidade utilizará vinhaça e torta de filtro, resíduos da produção sucroenergética, para produzir aproximadamente 28,3 milhões de metros cúbicos do combustível por ano.

Parte do biometano deverá substituir diesel na frota pesada da própria Atvos. A projeção é reduzir o consumo em cerca de 25 milhões de litros de diesel por ano e evitar entre 40 mil e 50 mil toneladas de dióxido de carbono.

Assim, o complexo deverá reunir etanol de cana, etanol de milho, bioeletricidade e biometano em uma mesma estrutura.

O emprego que chega e o trabalho que precisa ficar

A construção da fábrica deverá mobilizar aproximadamente 2 mil trabalhadores, com reflexos temporários sobre comércio, alimentação, hospedagem e serviços.

Depois da obra, porém, o número de empregos diretos previstos cai para pelo menos 100. É nessa passagem entre o pico da construção e o trabalho permanente que aparece um dos principais desafios da estratégia de industrialização.

As novas plantas precisarão de operadores, eletricistas, mecânicos, técnicos em automação, profissionais de laboratório, logística, segurança e manutenção. Para que essas vagas sejam ocupadas por moradores da região, será necessário preparar trabalhadores antes da entrada em operação.

O setor de bioenergia já emprega diretamente mais de 33 mil pessoas em Mato Grosso do Sul, movimenta aproximadamente R$ 1,3 bilhão em salários por ano e responde por cerca de 17% do PIB industrial estadual.

Em Nova Alvorada do Sul, mais de 300 alunos são atendidos atualmente pelo Senai em cursos ligados, entre outras áreas, à elétrica, mecânica, eletrônica, automação e logística.

Para o gerente regional Sul do Senai, Otávio Justa, a mudança industrial altera também o perfil dos profissionais procurados pelas empresas.

“Nova Alvorada do Sul apresenta uma forte presença dos setores de agroindústria e bioenergia, segmentos vitais que lideram a agenda de descarbonização e inovação no Estado. Esse cenário exige uma mão de obra cada vez mais qualificada para operar tecnologias de vanguarda”, afirma.

Em 2025, a taxa de empregabilidade dos alunos dos cursos técnicos do Senai/MS ultrapassou 85%.

“A indústria chega ao município; transformar esse investimento em mobilidade social é nosso objetivo, viabilizando o acesso da população local aos empregos gerados”, explica o governador.

O papel do Estado

O Governo de Mato Grosso do Sul não constrói nem administra as usinas. Os investimentos são privados.

A atuação estadual envolve incentivos, segurança jurídica, licenciamento ambiental, infraestrutura e políticas de qualificação voltadas à criação de condições para a instalação dos empreendimentos e para a ampliação de seus efeitos sobre as economias locais.

Na entrega da licença de instalação da unidade da Atvos, Riedel definiu o investimento como uma combinação de “energia limpa, segurança alimentar, emprego, renda e desenvolvimento para as pessoas quando associado à Educação”.

A licença ambiental também estabelece condicionantes destinadas a prevenir, reduzir ou compensar impactos sociais e ambientais. O Imasul designou equipe técnica para acompanhar projetos do setor sucroenergético.

Fonte: Redação
Foto: Divulgação/Ascom

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