Interditada desde 2019, a Igreja de São Benedito, na Comunidade Tia Eva, passa por restauração dentro de um projeto de R$ 2,213 milhões da gestão estadual. Moradores comemoram que este local tão importante para história da comunidade vai voltar a funcionar em breve, com toda estrutura necessária para as missas, terços e encontros religiosos. O entorno e área social da comunidade também ganham reforma.
A primeira etapa, dedicada à restauração da Igreja de São Benedito, tem previsão de entrega no período das comemorações do centenário da morte de Tia Eva, em novembro. O projeto como um todo já ultrapassou 40% de execução, enquanto os trabalhos no templo chegaram a 75%.
Um legado construído pela própria comunidade
A história preservada ali começou com Eva Maria de Jesus, a Tia Eva, matriarca que se tornou uma das principais referências da história afro-brasileira de Campo Grande e de Mato Grosso do Sul.
Tataraneto de Tia Eva e presidente da Associação dos Descendentes de Tia Eva, Ronaldo Jefferson da Silva representa uma comunidade que reúne mais de 4 mil descendentes espalhados pelo Estado. Para ele, recuperar a igreja significa preservar uma história que vinha sendo ameaçada também pela deterioração física do prédio.
“A igreja ficou muito tempo fechada. Desde 2019 buscávamos essa restauração, porque havia risco relacionado ao telhado.
Ela é o símbolo máximo da comunidade. É o legado que Tia Eva deixou”, afirma.
Ronaldo lembra que Tia Eva ergueu inicialmente uma igreja de pau a pique após uma promessa feita a São Benedito. Em 1919, com a participação da comunidade e a ajuda de outras pessoas, foi construída a igreja de alvenaria.
“A restauração é uma forma de preservar a história da Comunidade Tia Eva e esse legado”, resume.
Para Ronaldo, essa história não está apenas nos documentos ou na arquitetura. Está também nas lembranças pessoais. Ele cresceu frequentando a igreja com os pais e os avós e, mais tarde, levou os próprios filhos para as celebrações e para a tradicional Festa de São Benedito, realizada em maio.
“São lembranças que temos da infância e que, agora, como adultos, temos o dever de preservar. Meus filhos também frequentaram a igreja quando eram pequenos. Somos todos católicos e participamos da Festa de São Benedito, que acontece na segunda semana de maio, conforme foi definido por Tia Eva”, relata.
Essa transmissão entre gerações explica por que o fechamento da igreja representou mais do que a perda temporária de um espaço religioso. Para a comunidade, significou interromper parte de uma rotina construída durante décadas.
R$ 2,2 milhões para restaurar patrimônio e convivência
O investimento de R$ 2,213 milhões vai além da recuperação da Igreja de São Benedito. O projeto inclui a restauração de bens históricos ligados à comunidade, entre eles o sino, o busto de Tia Eva e o Cruzeiro de madeira.
Também serão revitalizados o salão de festas, a sala de oficinas e os acessos às residências. O conjunto receberá ainda uma praça de convivência, um Centro de Atendimento ao Turista e um espaço educacional destinado a ampliar as possibilidades de preservação e apresentação dessa história aos visitantes.
O antigo barracão passará por reforma para receber cozinha, churrasqueira, bar, palco, área de serviços e banheiros, além das adequações necessárias às normas de acessibilidade e de prevenção contra incêndio e pânico.
Na frente da igreja, será construída uma praça com bancos e áreas de convivência. O espaço terá ainda uma mangueira em homenagem às festas de Tia Eva.
Para Ronaldo, a amplitude do projeto corresponde ao papel desempenhado pelo local para além dos limites da própria comunidade.
“Essa reforma era esperada por todos os descendentes de Tia Eva e pelos católicos. A igreja é a mais antiga de Campo Grande e representa um legado para toda a cidade e para Mato Grosso do Sul. Não atende apenas à comunidade, mas a todos os descendentes espalhados pelo Estado”, afirma.
Projeto foi discutido com os moradores
A participação dos descendentes também entrou no processo de elaboração da intervenção. Moradores foram ouvidos para indicar necessidades e ajudar a compatibilizar a execução dos serviços com as celebrações tradicionais da comunidade.
Segundo Adanilto Faustino de Souza Junior, gerente de Projetos e Orçamentos Civis da Agência Estadual de Gestão de Empreendimentos (Agesul), a orientação do Governo do Estado foi construir o projeto em diálogo com quem vive no local.
“O projeto foi construído junto com a comunidade. Na fase de elaboração, ouvimos os moradores para entender quais eram as necessidades do local e garantir que a proposta respeitasse a história e a identidade da comunidade”, explica.
A mesma lógica foi mantida durante a execução. Os trabalhos foram divididos em etapas para reduzir as interferências na rotina dos moradores e evitar que a restauração impedisse a realização de eventos tradicionais.
Em maio, por exemplo, as festividades puderam ser realizadas no salão de festas. Agora, o esforço está concentrado na conclusão do templo antes das celebrações previstas para novembro.
“Essa divisão permite que as celebrações tradicionais sejam preservadas. Em maio, tivemos as festividades no salão de festas e estamos trabalhando para entregar a restauração da igreja para a celebração do centenário de Tia Eva, em novembro”, afirma Adanilto.
Depois da conclusão dessa etapa, os serviços avançarão para as demais áreas do salão e do entorno.
Memória como parte da vida cotidiana
Para o governador Eduardo Riedel, a intervenção faz parte da política estadual de valorização do patrimônio cultural e busca transformar novamente a igreja em espaço de convivência e transmissão da história da comunidade.
“Com a conclusão da obra, esperamos que a memória de Tia Eva esteja novamente presente no cotidiano da comunidade, não apenas como lembrança do passado, mas como legado vivo para as próximas gerações”, afirma.
Riedel também destaca que o diálogo com os moradores orientou tanto a elaboração do projeto quanto o cronograma da execução.
“Desde a elaboração do projeto, a comunidade participou das decisões e teve suas necessidades ouvidas. Na execução da obra, estamos mantendo o mesmo diálogo e fizemos os ajustes necessários para respeitar o calendário das celebrações e preservar a história da Comunidade Tia Eva. Esta é uma obra que restaura uma igreja, mas também recupera a memória, a cultura e o legado de um povo”, diz.
Fonte: Redação
Foto: Bruno Rezende/Ascom